A linguagem e as emoções na Terapia de Aceitação e Compromisso com Crianças e Adolescentes 

A linguagem apresenta-se como uma competência fantástica para lidar com o meio ambiente, permitindo-nos prever, antecipar, avaliar e planear. No entanto, claramente, as palavras podem evocar alguns sentimentos e pensamentos que lhe estão associados. Por exemplo, se pensar nas palavras “cão”, “cancro”, ou “mãe”, aparentemente não parecem causar sofrimento. Porém, se tiver fobia a cães, se um familiar seu tiver falecido por doença oncológica ou se a sua mãe esteve ausente no seu desenvolvimento, estas palavras podem evocar emoções e pensamentos como se estivesse a vivê-las no momento. Mas, repare, tudo a que está exposto no aqui e no agora são apenas as palavras. 

Neste sentido, as crianças e os adolescentes vão-se tornando cada vez mais verbais, sendo capazes de responder figurativamente a futuros e passados imaginados, o que nos leva a afirmar que o seu sofrimento não é muito diferente do dos adultos. Para além disso, ao longo do seu crescimento, é-lhes ensinado que esse mesmo sofrimento deve ser evitado através de regras explícitas como “acalma-te”, “anima-te”, “não há razão para estares assim”, “não te adianta chorar”, “tens que ficar bem”, que no fundo traduzem uma regra implícita “devias estar feliz o tempo todo e se não estás, algo de errado se passa contigo”. De facto, muito do sofrimento não surge das emoções, mas do esforço real em tentar evitá-las. Apesar da boa intenção dos pais para “ajudar”, estas estratégias não funcionam porque tentam controlar e até remover o inapreensível: o sentir emoções difíceis. 

“MUITO DO SOFRIMENTO NÃO SURGE DAS EMOÇÕES, MAS DO ESFORÇO REAL EM TENTAR EVITÁ-LAS. APESAR DA BOA INTENÇÃO DOS PAIS PARA AJUDAR, ESTAS ESTRATÉGIAS NÃO FUNCIONAM PORQUE TENTAM CONTROLAR E ATÉ REMOVER O INAPREENSÍVEL: O SENTIR EMOÇÕES DIFÍCEIS”

Quanto mais pensamentos e emoções evitamos, mais estes insistem em ‘bater à porta’. Como se estivéssemos a colocar uma bola de plástico debaixo de água. É verdade que não se vê a bola, embora possamos ter dois problemas: 1) estamos em esforço para impedir que a bola regresse à tona; 2) a qualquer momento o braço irá ceder e a bola irá boiar novamente. 

Assim, surge a Terapia de Aceitação e Compromisso, uma terapia de terceira geração baseada em valores, no compromisso com os mesmos e no momento presente com o claro objetivo de diminuir o sofrimento e aumentar o bem-estar. Esta abordagem é particularmente útil, porque as crianças apresentam a vantagem de ainda não terem vivido muito tempo, sendo, portanto, possível flexibilizar determinadas regras e comportamentos mais rígidos; e nos adolescentes dado o seu período de transição e mudança, poderá ser uma excelente oportunidade para promover flexibilidade psicológica bem como uma vida baseada em valores. Esta intervenção permite notar a utilidade dos pensamentos e emoções e escolher o que é importante mesmo que seja difícil no aqui e no agora. 

“ESTA INTERVENÇÃO PERMITE NOTAR A UTILIDADE DOS PENSAMENTOS E EMOÇÕES E ESCOLHER O QUE É IMPORTANTE MESMO QUE SEJA DIFÍCIL NO AQUI E NO AGORA”

Permite lidar com a bola a boiar na água escolhendo largar o controlo de a empurrar para debaixo de água. 

Por Rita Santos | Psicóloga Clínica