Um olhar caloroso e gentil sobre as crianças e adolescentes

Se por um lado, sabemos que o cérebro humano evoluiu para lidar de forma eficaz com as ameaças inerentes à sua sobrevivência, por outro lado sabemos que o ser humano é o único mamífero altamente dependente à nascença. Dependemos de um adulto para garantir a sobrevivência e segurança e somos bastante sensíveis ao seu tom de voz, ao toque e às suas expressões faciais. Neste sentido, experiências de carinho, cuidado, proteção e compreensão desde a infância contribuem para o desenvolvimento de competências de autorregulação em situações difíceis, e geram sentimentos de tranquilidade e segurança.

Habitualmente, os adolescentes estão sob a alçada de diversas mudanças (i.e., corporais, hormonais, emocionais) e inúmeras tarefas desenvolvimentais (i.e., autonomia, identidade), pressões ao nível do desempenho escolar e novas competências cognitivas (i.e., capacidade de abstração, metacognição) e é urgente que se compreenda que não basta que as crianças e adolescentes sejam bem tratados e que gostem deles quando tudo corre bem, mas sobretudo, quando algo corre mal.  

“NÃO BASTA QUE AS CRIANÇAS E ADOLESCENTES SEJAM BEM TRATADOS E QUE GOSTEM DELES QUANDO TUDO CORRE BEM, MAS SOBRETUDO, QUANDO ALGO CORRE MAL”

A hostilidade parental (p.e., “tens que ser o melhor aluno da turma”; “com estas notas não vais ser ninguém na vida”; “não podes falhar”; “deves ser muito bom no que fazes”, “és um desastrado”, “és mau”), negligência, experiências envergonhadoras (p.e., “mais uma vez fizeste xixi nas cuecas”, “o teu irmão sempre tirou melhores notas e se ele consegue tu também consegues”, “já viste bem como estás vestida hoje?”), a falta de afeto, amor, o bullying, conduzem a ansiedade excessiva, depressão, inseguranças, perfecionismo, dificuldades de ajustamento, dificuldades interpessoais. Desta forma, os imperativos (“deves”, “tens de”, “não podes”) são regras inflexíveis que sinalizam constantemente a ameaça, erros e inevitavelmente traduzir-se-ão em sofrimento psicológico e a um autoconceito débil. Contrariamente, a empatia, bondade, a gentileza, o não julgamento, a preocupação com o bem-estar para com as crianças e adolescentes estão relacionados com uma vinculação segura e maiores níveis de bem-estar. 

“A EMPATIA, BONDADE, A GENTILEZA, O NÃO JULGAMENTO, A PREOCUPAÇÃO COM O BEM-ESTAR PARA COM AS CRIANÇAS E ADOLESCENTES ESTÃO RELACIONADOS COM UMA VINCULAÇÃO SEGURA E MAIORES NÍVEIS DE BEM-ESTAR“

Assim, surgem as abordagens baseadas na compaixão (sensibilidade ao sofrimento do próprio e do outro com um compromisso de tentar preveni-lo ou aliviá-lo) como uma resposta eficaz para dificuldades experienciadas por crianças e adolescentes. Esta intervenção foca-se no treino da mente compassiva, isto é, na atenção compassiva (atenção ao que pode ajudar), imaginação compassiva (imagens de suporte e bondade), pensamento compassivo (forma de pensar generosa, amável, generosa e corajosa) e comportamento compassivo (comportamento para aliviar o sofrimento). Não obstante, quando as crianças e adolescentes se sentem acolhidas, acarinhadas, cuidadas e não julgadas mesmo quando não fazem as coisas assim tão bem, ativa-se um sistema muito importante: o sistema de tranquilidade (soothing system). Neste sistema reside o calor, o afeto, o bem-estar, a (auto)compaixão, a segurança,a compreensão a tranquilidade, serenidade. 

Efetivamente, a investigação tem mostrado que a autocompaixão está negativamente associada a ansiedade e depressão e existem boas evidências da Terapia Focada na Compaixão na redução de muitos problemas de saúde mental. 

Que possamos ter um olhar gentil e caloroso sob as crianças e adolescentes para que sejam adultos saudáveis!

Por Rita Santos | Psicóloga Clínica