Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT)

A Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT – Mindfulness Based Cognitive Therapy, tem origem nas bases científicas da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e no programa de MBSR, que por sua vez tem suas bases enraizadas em 2.300 anos de tradição dentro do contexto budista (Crane, 2009).

A MBCT foi originalmente desenvolvida para pacientes com um problema clínico particular: a vulnerabilidade à recaída na depressão. Contudo, ao longo do tempo, vem sendo testada para outras demandas terapêuticas, como pacientes oncológicos, síndrome da fadiga crônica, transtornos de ansiedade e redução do estresse de forma geral. Configu ra-se como uma prática terapêutica que busca encorajar os pacientes a encarar suas experiências de uma forma diferente a que normalmente estão habituados, ou seja, sem julgamento (Chiesa & Malinowski, 2011). Dessa forma, sua relação com pensamentos e sentimentos ditos desafia dores pode se tornar diferente da habitual.

O programa incorpora ferramentas típicas da TCC (principal mente envolvendo exercícios de como lidar com o prenúncio da de pressão) com práticas de meditação mindfulness como, por exemplo, a minimeditação, chamada de respiração de três minutos, que é o primeiro passo ao lidar com situações difíceis e com sentimentos de desconforto (Williams, Teasdale, Segai, & Kabat-Zinn, 2007).

Assim como o programa de MBSR, oito sessões integram o pro grama de MBCT, descritas no Quadro 3.3, cujos temas variam a cada semana.

Sessões semanais de MBCT (Crane, 2009):

Semana 1: Piloto automático;
Semana 2: Lidando com barreiras;
Semana 3: Mindfulness na respiração (e o corpo em movimento); Semana 4: Permanecendo presente;
Semana 5: Aceitação e “deixar estar”;
Semana 6: Pensamentos não são fatos.
Semana 7: Como posso cuidar melhor de mim?
Semana 8: Usando o que aprendi para lidar com humores futuros

A contribuição da TCC dentro do programa de MBCT se traduz essencialmente pela compreensão do processo da depressão assim como na abordagem (Beck, Rush, Shaw and Emery, 1997). Elementos muito presentes nos quadros de depressão, como a ruminação (autocrítica, foco em si mesmo, pensamentos negativos repetidos) e a esquiva (não entrar em contato com a experiência direta de pensamentos desafia dores, sensações corporais e emoções), são considerados gatilhos, e a

compreensão desses processos irá auxiliar no tratamento, tanto de base cognitivo-comportamental como no MBCT Em ambos, o foco está em mudar as crenças no conteúdo dos pensamentos. O foco no treinamen to sistemático em estar mais consciente, momento a momento, das sen sações corporais, dos pensamentos e das emoções como eventos no campo da consciência auxilia sensivelmente na mudança da relação com esses pensamentos, que antes eram entendidos como realidade e agora passam a serem vistos apenas como produtos da mente (“pensamentos são só pensamentos”) (Crane, 2009).

Três são os aspectos principais dessa abordagem: (1) a depressão é vista como uma condição recorrente (ao invés de ficar na expectativa de uma cura definitiva, irreal, busca-se aprender a conviver com ela, reconhecendo o prenúncio e prevenindo recaídas); (2) reconhecer o ciclo repetitivo que se inicia com humor triste, que pode ser um (3) gatilho para padrões habituais de pensamentos de se autodenegrir, ru minações, culminando com evitação. As práticas de mindfulness am pliam a consciência do paciente em relação a esse ciclo, colocando-o inicialmente em contato com as sensações e pensamentos-gatilho, per mitindo a ele uma nova perspectiva do processo: pensamentos negati vos e ruminações, assim como queda de humor, são aspectos da ex periência, ao invés de serem aspectos centrais do (perspectiva descen tralizada), e tornam-se a chave na prevenção de recaídas na depressão (Crane, 2009).

A MBCT tem sido recomendada pelo National Jnstitute for Clinicai Excellence (2009), na Inglaterra, como um programa efetivo para pessoas com história de depressão recorrente (três episódios).

Muitos países, incluindo Reino Unido, Holanda e Austrália, têm esta belecido treinamentos em MBCT para os profissionais de saúde que trabalham na prevenção da depressão em seus settings de trabalho (Crane, 2009; Kuyken, 2013).

Nesses países, o tratamento de base para a depressão é cognitivo- -comportamental com administração de medicamentos antidepressivos, mas, em geral, considera-se que muito pouco se investe em programas de prevenção psicossociais, como no caso de MBCT. A implementação disto encontra-se em uma fase inicial e enfrenta barreiras na transferência de evidências de pesquisa para a prática, mas há grande expectativa de que possa se disseminar, inclusive para outras populações e settings, a partir de maiores investigações sobre sua efetividade e eficácia (Crane, 2009; Kuyken, 2013).