Stress

Todos nós já nos sentimos stressados. É normal sentirmos que temos muito com que nos preocupar e demasiadas coisas para fazer, que os outros estão a exigir demasiado de nós ou que temos que lidar com situações sobre as quais não temos grande controlo.

Há situações que nos provocam stress. Normalmente são situações que implicam mudanças ou que não controlamos. Algumas podem ser situações felizes (como casar ou ter um bebé) e outras menos positivas (como a doença de um familiar ou uma mudança de casa). Essas situações podem ser duradouras, como o desemprego, a pobreza, os problemas nas relações próximas ou ter de cuidar de um familiar doente. Mas também podem ser passageiras, como uma tempestade, haver muito trânsito, estarmos constipados ou atrasados para um compromisso.

Quando estamos stressados podemos ter diferentes tipos de reacções, nomeadamente físicas: dor de cabeça, dores musculares, cansaço, dificuldade em dormir, pressão alta, fome ou falta de apetite, indigestão, desmaios, dor no peito. Podemos sentir-nos irritados, agressivos, deprimidos, com medo de falhar, com receio do futuro, sem interesse pelos outros e pela nossa vida e perdermos o nosso sentido de humor. Pode ser mais difícil para nós tomarmos decisões e concentrarmo-nos. 

Mas nem sempre o stress é mau, até pode ter um lado positivo. Por exemplo, quando temos um trabalho para entregar, o stress pode manter-nos alerta e focados. Mas só é positivo quando dura pouco tempo e depois relaxamos.

Os fenómenos positivos tendem a seguir uma trajetória não monotónica (lei de Yerkes-Dodson):

Embora o stress não seja uma doença, quando nos sentirmos muito stressados durante longos períodos de tempo, podemos desenvolver problemas de saúde mental, tais como depressão ou ansiedade.

Em termos gerais, o stress corresponde a um estado fisiológico de excitação. As respostas do nosso organismo desencadeadas pelo stress aos múltiplos estímulos (físicos ou psicológicos) são reações gerais de ‘alarme’ (psicológicas, fisiológicas ou ambas), com as quais o nosso corpo procura suportar melhor qualquer exigência que perturbe o seu bom funcionamento.

Este conceito adquiriu uma maior importância com Hans Selye, um canadiano especializado em endocrinologia. Os trabalhos de Selye debruçaram-se, essencialmente, não sobre os estímulos que exercem pressão sobre o nosso organismo, mas sobre a resposta biológica do nosso organismo a tais estímulos. Ele verificou que a resposta biológica que as pessoas dão é sempre a mesma, independentemente do tipo do agente agressor (de natureza física ou psicológica), chamando a essa resposta de Síndrome Geral de Adaptação (SGA) (1956).

Assim, a partir desse estudo, define o stress como uma “resposta não específica do organismo a qualquer exigência de adaptação“. A sua manifestação é sempre a mesma, variando apenas em gravidade e duração, em função da intensidade do agente agressor e da sua permanência real ou simbólica.

De acordo com Selye, o SGA processa-se em 3 fases:

1. a fase inicial de alarme, descrita como o impacto inicial do agente agressor no organismo;

2. a fase de resistência orgânica, no caso do agente agressor permanecer por um período mais prolongado, durante a qual os mecanismos de adaptação do organismo entram em ação tendo como objetivo o equilíbrio biológico do corpo (homeostase);

3. e a fase de esgotamento, exaustão ou fadiga, resultado de um longo e intenso esforço durante o qual o organismo tentou alcançar a homeostase e a adaptação.

A tensão biológica está sempre presente na vida, mas em quantidade determinada. A dose estimulante e fisiológica de stress é diferente e específica de indivíduo para indivíduo. Dentro dos seus limites fisiológicos, o stress é um fator importante para a vida dos seres humanos, mas se ultrapassar tais limites, passa a ser excessivo, implicando o desequilíbrio do nosso organismo e, até mesmo, uma situação patológica.

São várias as situações que podem gerar stress. No entanto, existem acontecimentos, mais ou menos comuns na vida de uma pessoa (tal como salientado acima)- tal como a morte de um familiar ou amigo, o processo de um divórcio, as frustrações e irritações da rotina diária, e a sobrevivência a longo prazo de um determinado problema (por exemplo, conviver com um familiar agressivo ou importuno) -, que parecem conduzir mais facilmente a uma situação de stress.

Os sintomas indicativos de stress são, principalmente, os seguintes: um aumento significativo da ansiedade e/ou depressão; insónia; inquietação; dificuldade de concentração; alguns sintomas físicos: aumento do batimento cardíaco, cólicas abdominais, mal estar gástrico, etc.

Nos casos mais graves pode ocorrer despersonalização (o doente considera que o seu corpo e/ou pensamento e a sua relação com os outros, está diferente) ou desrealização (o doente passa a ver o mundo à sua volta de uma forma diferente).

O tratamento das reações agudas (repentinas) de stress efetua-se através da redução da resposta emocional (com medicamentos), do relembrar o evento stressante (falar dele ajuda a pessoa a não evitar ou negar, de forma insistente, o acontecimento que prolonga o problema e que leva ao desenvolvimento de outros problemas mais graves) e da aprendizagem de eficazes estratégias de coping (esforços mentais e comportamentais desenvolvidos pela pessoa para controlar, reduzir ou tornar tolerável as exigências internas ou externas criadas por uma situação que causou stress).

No caso do stress pós-traumático (PTSD), ocorre uma resposta prolongada e anormal a determinadas circunstâncias, excecionalmente intensas (por exemplo, uma doença grave), que podem causar angústia. Os doentes podem apresentar:

  • recordações perturbadoras do acontecimento que invadem sem controlo os seus pensamentos;
  • atuar ou sentir como se o acontecimento traumático estivesse a decorrer;
  • apresentar um mal estar psicológico intenso perante coisas que se assemelham a aspetos do acontecimento traumático;
  • desenvolver esforços extraordinários para evitar sentimentos, conversas, atividades, lugares ou pessoas que desencadeiam lembranças do trauma;
  • e, ainda, apresentar uma extensa gama de sintomas, tais como, insónias, irritabilidade, dificuldades de concentração e sentimentos de desprendimento e estranheza em relação aos outros.
  • Numa primeira fase, o tratamento aplicado em situações críticas como a apresentada costuma incidir nos fármacos (por exemplo, ansiolíticos) e, posteriormente, num suporte emocional, que ajude a relembrar o trauma de uma forma não tão penosa.

*texto de Ricardo João Teixeira, revisto por Ruth Ministro.