Os quatro cavaleiros do Apocalipse no casal

O conflito é inerente à relação, possui um carácter funcional quando resolvido de forma construtiva, constituindo assim uma oportunidade de reconexão, de crescimento e de evolução. É quando o conflito é mal gerido pelos elementos do casal, que a relação se deteriora. Se este não souber usar a comunicação de uma forma consciente, compassiva e assertiva, dá-se o apocalipse: deixam de haver apenas dois elementos na relação, passando a existir seis: tu, eu e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, prontos para a destruição.

Segundo John Gottman, especialista em dinâmicas relacionais, são estes quatro padrões comportamentais os grandes responsáveis pelo caos nos relacionamentos conjugais: a crítica, o desprezo, a defensividade e a obstrução. O psicólogo e a sua equipa avaliaram a comunicação de 79 casais norte-americanos, para perceber a frequência destes comportamentos disfuncionais em 15 minutos de conversa, usando-a como factor preditor do divórcio, com uma taxa de precisão de 93% quando em conjunto com questionários de avaliação da satisfação na relação. O estudo foi levado a cabo ao longo de 14 anos, durante os quais 21 dos casais acabaram por efectivamente se separar, o que permitiu aos investigadores comprovar a teoria de que estes padrões comunicacionais específicos estão associados ao divórcio. No entanto, e como para grandes males, grandes remédios, os autores também trabalharam no desenvolvimento de antídotos para cada um destes comportamentos, ou seja, formas de gerir o avanço desenfreado destes quatro cavaleiros na comunicação e consequentemente o seu efeito na saúde conjugal.

No que diz respeito à Crítica, ela manifesta-se pelo ataque verbal a aspectos da personalidade e/ou carácter do/a parceiro/a, em vez de focar a comunicação no comportamento gerador de mal-estar. Quando presente na comunicação de uma forma recorrente, este cavaleiro traz com ele sentimentos de culpa, injustiça e ressentimento. O antídoto para este padrão é abordar a comunicação de uma forma gentil, redirigindo o foco para si mesmo, pensando: o que é que eu sinto e o que é que eu preciso? Esta atitude pode prevenir a escalada negativa na comunicação, colocando a ênfase na tomada de consciência de uma necessidade e na manifestação da mesma ao outro, sem o culpar ou criticar.

O Desprezo, por seu lado, manifesta-se por uma visão do outro como moralmente inferior, usando uma comunicação marcada por sarcasmo, cinismo, chamar nomes, e comportamentos não-verbais depreciativos como revirar os olhos ou suspirar quando o outro fala. Para Gottman, este cavaleiro é “o beijo da morte” nas relações, originando sentimentos de raiva e desgosto. Uma forma de contrariar este padrão, segundo o autor, é construir uma cultura de apreciação, compreensão e respeito na relação. Através de um reforço de pequenos gestos de apreciação, afecto, gratidão e respeito, cria-se uma perspectiva positiva que protege o casal de sentimentos de desprezo. Gottman usa a metáfora da “conta bancária emocional” para explicar que para cada interacção negativa – levantamentos – têm que existir cinco ou mais interacções positivas – depósitos – para que o saldo da conta bancária emocional do casal seja sempre positivo.

Quanto à Defensividade, esta manifesta-se por uma atitude de autoprotecção através de comportamentos de indignação e vitimização, bem como de culpabilização do outro pela totalidade do problema. Para se proteger da devastação provocada por este cavaleiro na relação, o casal pode investir na tomada de responsabilidades individuais no conflito, trabalhando no sentido de conseguir um compromisso que tenha em conta as necessidades de cada um.

Finalmente, a Obstrução ou distanciamento emocional acontece quando um ou ambos os elementos do casal deixam de investir na comunicação, criando um muro que os distancia um do outro e da resolução positiva do conflito. Este cavaleiro surge frequentemente quando a resposta emocional ao conflito é demasiado intensa, desencadeando mecanismos internos de “luta ou fuga” que se tornam fisicamente insuportáveis (aumento do ritmo cardíaco e descargas de adrenalina e cortisol no organismo). O antídoto para este comportamento passa pelo desenvolvimento do autoconhecimento de cada elemento do casal, de forma a tornarem-se mais conscientes das suas emoções, reacções, necessidades e limites durante o conflito, ganhando, assim, maior capacidade de auto-regulação emocional. Pedir uma pausa ao outro para permitir o abrandamento fisiológico da resposta de “stress” através de actividades calmantes e de autocuidado, antes de esta originar um bloqueio na comunicação, deixa em aberto o caminho para a reaproximação e resolução do conflito.

Importa, pois, ressalvar que não podemos deixar a relação cair nas mãos destes Quatro Cavaleiros do Apocalipse, se queremos mantê-la saudável, funcional e satisfatória, e para tal é essencial que estejamos atentos às suas investidas, trabalhando activamente em comportamentos que nos lembrem e relembrem, a nós e ao/à nosso/a parceiro/a, que na base da comunicação, e do próprio conflito, tem que prevalecer sempre e invariavelmente o amor.

Texto da Dra. Ruth Ministro, originalmente publicado na Draft World Magazine (Tu… Eu e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse)

NOTA: Veja o vídeo* ‘Vida conjugal, o que muda?’, no programa Sociedade Civil (RTP 2), onde é feita alusão a estes quatro comportamentos que desgastam a relação conjugal.

*Com o contributo do Dr. Ricardo João Teixeira.

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